Textos
Discurso da morte
o morto
navega quase impunemente na balsa dos olhos de quem sente e lhe trai um tempo com jeito de arma molhados passos e prantos que se amontoam na alma a carne de dureza tanta rasga o vão da vida como uma lâmina as mãos dormem lânguidas como pássaros inúteis e sem dramas o morto navega ainda impunemente a balsa do seu corpo nos olhos dos presentes rasga objetivo a íris mais urgente num rio de saudade que se comprime nos dentes sem vau o morto bóia os quilos de passado nos ombros da memória e do transeunte portador da vida salta um cheiro de dó informalmente reprimido a morte sempre esquece de esquecer a vida
Aurélio Aquino
Publicado em 21/04/2010 às 18h28
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