Aurélio Aquino - verbos

Assim se invente a vida, coisa de não sofrer, jeito de ser querida

Textos

Discurso em andante compasso
haverá manhãs
em que meu pai me faltará
e eu, jogando à vida,
inventarei as tardes
em que ele esteja

haverá manhãs
em que me faltarei
e caminharei pelas noites
como um falido vagalume

haverá manhãs
em que as manhãs faltarão
e os homens caminharão sem tempo
pelos sovacos do mundo

haverá espaços
em que as noites faltarão
e a estrela da manhã
adormecerá encoberta
nas dobras do teu vestido de tule

haverá corações
engordurados
e a estranha sensação
de vãos pecados

haverá razões
desencontradas
e a urgente razão
dos astronautas

haverá senões
em cada face
e haverá um verbo
que me baste

haverá um caos
em cada esforço
e o exato ângulo do peito
em que me morro

haverá vontades
que não se aprestem
a remoer os fatos
através dos séculos

haverá soluções
de problemas não postos
e uma leve fímbria de tarde
em cada nesga de remorso

haverá manhãs
em que meu pai me faltará
e eu amolgarei os tempos
em que ele estivesse

haverá desusos
frequentemente
e a leve compreensão
do que se sente

haverá multidões
que se farão sozinhas
e canções de mil invernos
nas esquinas dos dias
Aurélio Aquino

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original (por Aurélio Aquino).


Publicado em 09/03/2010 às 22h22


Comentários

Crie o seu próprio Site do Escritor no Recanto das Letras