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Discurso em andante compasso
haverá manhãs
em que meu pai me faltará e eu, jogando à vida, inventarei as tardes em que ele esteja haverá manhãs em que me faltarei e caminharei pelas noites como um falido vagalume haverá manhãs em que as manhãs faltarão e os homens caminharão sem tempo pelos sovacos do mundo haverá espaços em que as noites faltarão e a estrela da manhã adormecerá encoberta nas dobras do teu vestido de tule haverá corações engordurados e a estranha sensação de vãos pecados haverá razões desencontradas e a urgente razão dos astronautas haverá senões em cada face e haverá um verbo que me baste haverá um caos em cada esforço e o exato ângulo do peito em que me morro haverá vontades que não se aprestem a remoer os fatos através dos séculos haverá soluções de problemas não postos e uma leve fímbria de tarde em cada nesga de remorso haverá manhãs em que meu pai me faltará e eu amolgarei os tempos em que ele estivesse haverá desusos frequentemente e a leve compreensão do que se sente haverá multidões que se farão sozinhas e canções de mil invernos nas esquinas dos dias
Aurélio Aquino
Publicado em 09/03/2010 às 22h22
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