Textos
Do mister da vida
diz que era preciso
tecer um dia fecundo e boiar frequente em cada abraço e entranhar-se nas coisas e perder-se no mundo diz que era preciso truncar cada soluço e beber os sais e as lágrimas e espantar da face cada susto diz que era preciso engravidar a noite e parir-se de lua e beber os beijos que pulam perdidos em cada rua diz que era preciso amanhar o corpo e trançar no peito a saudade e engolir no vão dos sentimentos a textura bruta da vontade diz que era preciso empalmar o horizonte com a nesga infinita do olhar da tarde diz que era preciso consumir o dia e dividir a boca da largura da alegria diz que era preciso enfunar a vela dos cabelos e partir-se do mar e fugir-se do mêdo diz que era preciso amansar a incoerência e afagar a vida com a solicitude exata com que se constrói a consciência diz que era preciso empregar o mundo na placidez inconstante dos sentidos diz que era preciso consumir o sonho com a sofreguidão e a tática dos grandes oceanos diz que era preciso nutrir-se do verso e se achar palavra e se nutrir do verbo diz que era preciso se rasgar o peito nos arames humanos da grande incompreensão diz que era preciso amar-se o irmão com a força do abraço e o jeito do coração diz que era preciso suportar os fardos e engolir as culpas e inventar pecados diz que era preciso batalhar o pão e compartir a fome e fartar-se de não; diz que era preciso conclamar o povo e fundir-se na praça e fazer-se novo; diz que era preciso, enfim julgar o carrossel da vida com a exatidão da anatomia de quem se joga no mundo com a força da alegria.
Aurélio Aquino
Publicado em 08/03/2010 às 22h14
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